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Qual é o Papel do Trabalho na sua Vida?

por André Camargo

Melhor viver o próprio dharma, mesmo imperfeitamente, do que o dharma de outra pessoa com perfeição.

 

Bhagavad Gita

Tive uma paciente de psicoterapia que me procurou depois que as pressões do emprego na indústria farmacêutica desencadearam crises de pânico.

E um cliente de coaching que era um competente vendedor, mas que aos trinta anos engordou cerca de 20 quilos, terminou seu relacionamento e teve de voltar para a casa dos pais para receber cuidados. Deprimido, não conseguia parar de chorar e levantar da cama para trabalhar.

Você sabia que a origem da palavra Trabalho, no latim, está ligada a um instrumento de tortura medieval? E que nos alicerces de nossa cultura (judaico-cristã) está a visão do trabalho como castigo?      

 

No mito da Queda, que fala sobre as origens da humanidade, Deus está bem contrariado porque Adão e Eva pisaram na bola. Ora, eles tinham tudo que poderiam desejar. Ainda assim, ingratos como dois adolescentes de classe média, resolveram experimentar justo aquela única frutinha que não deveriam comer.

E Deus ficou sabendo. (Afinal, Deus é Onisciente)

A punição? Foram condenados, respectivamente, à dor do parto e a “comer o pão do suor de seu rosto”.

(Note que pelo menos não foram condenados a comer “o pão que o diabo amassou”)

O curioso é que pouco importa se hoje deixamos de estudar latim ou se, como eu, não somos judeus ou cristãos.

Assim como a palavra segue portando a mesma carga simbólica, a sombra do trabalho sentido como um castigo e uma tortura inescapáveis enraizou-se em uma dimensão profunda do nosso jeito de ser e estar no mundo.

Tornou-se um traço cultural, sobretudo no Ocidente.

Acredito que esse é um jeito de encarar o trabalho que cada um de nós precisa superar. Ou vamos seguir nos resignando a vidas sem sentido e condições de trabalho anestesiantes, como se não houvesse alternativa.

 

Como se tudo que pudéssemos fazer fosse levar as mãos aos céus e agradecer porque pelo menos não estamos desempregados.

E para você, qual o sentido do Trabalho?

Qual o papel do Trabalho na sua vida?

 

Já parou para pensar nessas coisas?

 

Na minha experiência com meus clientes, as pessoas vivem o trabalho de algumas destas maneiras:

  • Como um mal necessário. A pessoa vai trabalhar a contragosto em troca de um salário no final do mês. Segunda-feira é cara feia e corpo mole--e a vida é o que acontece no (pouco) tempo que sobra.
     
  • Como uma fuga. Estão o tempo todo trabalhando ou pensando no trabalho e não sobra tempo para mais nada. O corpo, as emoções e os relacionamentos pagam o preço.
     
  • Como o primeiro emprego que apareceu, graças a Deus, depois de muito tempo de angústia. Agora vai dar para continuar pagando as prestações do carnê e os juros do cartão de crédito.
     
  • Como fonte de prestígio, status, poder e admiração. A identidade da pessoa se funde com sua ocupação, seu cargo e a empresa onde trabalha. Você deixa de ser o Zé e passa a ser o Silva, Gerente de Novos Negócios da Ambev. Só que aí a pessoa é demitida e não sabe mais quem é.

Eu hoje tenho uma visão diferente do Trabalho e do lugar que ocupa na vida. Veja se faz sentido para você.

Na Física, o conceito de Trabalho está associado à ação de uma força que, aplicada sobre um objeto, afeta o deslocamento desse objeto.

Então, traduzido para o contexto humano, fica assim: o Trabalho tem a ver com o impacto que eu produzo no mundo a partir do meu esforço intencional. A energia que eu coloco no mundo.

Em que direção eu me empenho para que as coisas caminhem? Que mundo estou criando a cada gesto, a cada palavra e a cada movimento?

Olhando desse ângulo, a ideia de propósito, de motivação ou de intenção está embutida na ideia de Trabalho.

Não é?

Porque sempre existe um motivo, ou vários motivos, conscientes ou inconscientes, para que eu deixe o estado de repouso e escolha fazer alguma coisa (afinal, nosso organismo costuma operar sob o princípio da economia de energia).

 

O Propósito que alimenta meu Trabalho está entrelaçado a uma Visão (ou um Holograma) do mundo que eu desejo criar. E da pessoa em que minha ação constante irá me transformar.

 

Um exemplo prático, para amarrar esses conceitos de forma bem simples: você desce do carro para empurrar porque o motor pifou. Ao empurrar, você transfere a energia do seu esforço para o carro, que vai se deslocar do estado de inércia até onde você achar melhor.

 

Propósito é provavelmente evitar algum acidente, preservar o veículo ou liberar o trânsito para outras pessoas. E você só vai agir se puder antever o lugar onde quer que seu carro fique.

Caso você esteja na base de uma ladeira, por exemplo, quando não dá para empurrar, ou você desconheça alguma maneira viável de colocar o carro em uma condição melhor do que a que está, então mesmo que conserve o propósito (de proteger você mesmo, o carro e outras pessoas), na ausência de uma Visão do resultado possível, não vai agir.

Em outras palavras, a gente sempre age com base na mudança que queremos criar, a partir de uma visão do que somos capazes de produzir (uma visão que pode precisar de ajustes) e dos talentos, paixões, recursos e conhecimentos que conformam nosso jeito presente de ser e estar no mundo.

Uma vez que limpamos a visão de crenças limitantes, aprofundamos nossos talentos e paixões e ampliamos nossos recursos e conhecimentos, também se esclarece, se amplia e se aprofunda nosso horizonte de ação.

Começamos a vislumbrar estratégias mais inteligentes.

Faz sentido?

 

Daí a gente chega na ideia de Trabalho como Dharma, que é como eu gosto de pensar.

 

Gosto de pensar no Dharma como o Caminho Sagrado de cada um: a prática constante que permite manifestar sua essência. Seu propósito de vida traduzido em ação.

 

O trabalho da sua vida está vinculado ao impacto que você deseja que sua passagem por esse planeta cause. O fruto sutil do seu esforço é o tipo de energia que você irradia a partir do seu Centro, através da sua presença e da sua ação.

 

Ao trilhar seu Caminho Sagrado, você coloca sua verdade à serviço da Vida.

Então, uma vez que tem alguma clareza dos seus talentos, do que alimenta seu núcleo de vitalidade e do tipo de impacto que você deseja causar, você pode se perguntar:

  1. Que tipo de atividade profissional me permite ser coerente com o que é sagrado para mim?
     
  2. Que empresa ou organização me dá a oportunidade de viver alinhado(a) com minha Visão e meus Valores?
     
  3. Que relacionamentos me aproximam e que relacionamentos me afastam do meu Caminho?
     
  4. Que ambientes e rotinas fazem sentido para mim e que ambientes e rotinas sugam a minha energia e me deixam com uma sensação de impotência, conflito interno e estagnação?
     
  5. Que projetos e ações reverberam meu projeto de vida e dão sentido à minha existência?
     
  6. Que condições de trabalho e de vida contribuem para que eu me torne a versão mais plena, potente e abundante de mim mesmo(a)?

O Dharma de uma semente de jabuticaba é se tornar a jabuticabeira que já é, em potência. O trabalho da vida de uma semente de jabuticaba é desabrochar, crescer, oferecer ao mundo suas flores e frutos.

 

Seria trágico que fosse obrigada a produzir mangas. Ou, que, na ausência das condições necessárias, terminasse seus dias como um arbustinho atrofiado, pálida figura do que poderia ter se tornado.

 

Da mesma maneira, cada um de nós é portador de sementes únicas de realização. Cabe a nós cultivar as condições necessárias para que nos tornemos, afinal, tudo o que poderíamos ter sido.

 

Talvez você esteja hoje em um caminho que não é o seu.

Em um emprego que paga as contas, mas não te preenche. Em meio a relacionamentos que acalmam a solidão, mas não tocam sua alma. Ou perseguindo uma carreira que não tem um coração.

Não tem problema.

O problema começa quando você faz vista grossa ou se deixa imobilizar. Quando você carece de foco ou plano de ação.

Então eu convido você a usar cada aspecto da sua vida cotidiana como um campo de experimentação.

Usar sua criatividade para explorar opções inusitadas e, no percurso, aprender mais a respeito de que está vivo dentro de você e de que papel você veio para desempenhar no drama cósmico.

Você pode se perguntar, momento a momento, que pequenas mudanças dá para fazer no dia a dia, a partir de hoje, para cumprir seu destino humano e se tornar, cada vez mais, aquilo que, afinal, você já é.

É maravilhoso viver assim.

Experimente.

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